Proposta também apresenta melhorias para a navegação nas hidrovias da região Norte
O deputado federal, Maurício Carvalho (União Brasil-RO), apresentou nesta semana um projeto de lei que busca melhorar a navegabilidade das hidrovias na região Norte do Brasil. O PL 3450/2024 busca incluir dispositivos que garantam a dragagem contínua e eficiente dos rios da região no Programa Nacional de Dragagem Portuária e Hidroviária II.
A proposta altera a Lei nº 12.815 (Lei dos Portos) e também busca o mapeamento e monitoramento constante dos trechos críticos das hidrovias por parte das autoridades federais, além de estudos técnicos para identificar pontos que necessitam de dragagem, aquisição e manutenção de equipamentos para dragagem, capacitação de profissionais para a realização dessas atividades e o estabelecimento de parcerias com estados, municípios e a iniciativa privada para a execução das atividades de dragagem.
O processo de dragagem busca desobstruir o rio e melhorar a navegabilidade. Ou seja, é extremamente importante para o transporte fluvial e, consequentemente, para a economia da região Norte, especialmente diante da seca histórica que o estado de Rondônia enfrenta, com níveis nunca antes vistos.
Segundo órgãos de fiscalização, os prejuízos causados pela seca de 2024 indicam uma situação semelhante ou até pior que a de 2023. No ano passado, o prejuízo superou a marca de R$ 1 bilhão devido à interrupção do tráfego de embarcações.
“O transporte fluvial é essencial para a Região Norte, onde a população tem poucas alternativas de mobilidade. Com esse projeto, queremos garantir que os rios sejam navegáveis durante todo o ano, evitando prejuízos e melhorando a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas”, destacou o deputado Maurício Carvalho.
A proposta aguarda despacho do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para seguir para análise das comissões da Câmara.
Dobradinhas entre partidos do centro e da direita são as mais comuns nas coligações formadas para as disputas às prefeituras do país nessas eleições. O mesmo padrão se repete nas trocas de legendas feitas por candidatos que disputaram o pleito de 2020 e se candidataram em 2024, mostra GPS Partidário da Folha.
O perfil das coligações e migrações entre os partidos são dois dos fatores usados na métrica criada pela reportagem para definir a proximidade entre 28 partidos registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Os componentes foram mensurados junto com o perfil de votação na Câmara dos Deputados e a participação em frentes temáticas da Casa para ranquear o nível ideológico dos partidos, em que 1 é o máximo à esquerda e 100 o máximo à direita.
Cada quesito é influenciado por fatores diversos. A migração de legenda é uma decisão do candidato, que pode ser guiada tanto pela busca de mais recursos para a campanha ou pelo peso da legenda, por exemplo, além da ideologia da sigla.
No conjunto geral, a mudança mais comum aparece entre candidatos da direita e do centro, seguida por trocas entre o centro e entre a direita. Na esquerda, é mais comum a migração dentro desse próprio campo político. Na sequência aparecem mudanças com o centro e, por último, entre esquerda e direita.
Entre partidos, as quatro trocas mais frequentes envolvem o União Brasil, sigla criada em 2022 a partir da fusão entre DEM e PSL, situação que libera correligionários com mandato no Legislativo a trocar de legenda.
A migração mais frequente envolvendo o União Brasil foi com o PSD, do centro, com 2.380 registros, seguida pelo PP, centro, com 2.276, PL, direita, com 2.262 e MDB, centro, com 2.239.
Na outra ponta, entre as trocas menos frequentes, estão as migrações entre o Novo e o PT, com oito casos, PRTB e PSOL, com quatro, e Novo e PSOL, com três.
No caso das coligações, válidas apenas para as disputas às prefeituras, pesa o interesse de cada sigla em compor uma aliança no município.
Ao todo, foram 15.349 coligações neste pleito, a maior delas em Betim (MG), com 18 partidos apoiando o o candidato Heron Guimarães, do União Brasil. Foram considerados os partidos que estão coligados por fazerem parte de uma federação, caso do PT com PC do B e PV, PSDB com Cidadania e PSOL com Rede.
É mais comum que partidos de centro integrem coligações onde estão também siglas de direita. Um exemplo é a aliança de 11 legendas pela reeleição de Ricardo Nunes (MDB) à Prefeitura de São Paulo, que tem partidos dos dois espectros.
Na sequência aparecem alianças de siglas da esquerda com o centro, como aparece na coligação no Rio pela reeleição de Eduardo Paes (PSD), que tem também siglas de direita, e entre a própria esquerda, caso da campanha da deputada federal Maria do Rosário (PT) à Prefeitura de Porto Alegre (RS).
Os partidos de esquerda que mais se coligam com legendas do centro são o PDT e PSB. No centro, o PMB, Agir e Mobiliza formam mais alianças com partidos da direita. O União Brasil e o Republicanos, ambos à direita, estão mais coligados com partidos do centro.
O exemplo mais recorrente de legendas que integram as mesmas coligações é do MDB e PSD, juntos em 1.259 municípios. Bem menos comum são junções com partidos de campos totalmente opostos, caso do Novo e a federação do PT, coligados na disputa pela Prefeitura de Mariana, em Minas Gerais.
Fontes para a análise
Migração partidária: padrões de mudança de partido entre os políticos a partir de dados de candidatura registrados pelo TSE até 2 de setembro;
Frentes parlamentares: participação dos partidos em diferentes frentes temáticas na Câmara dos Deputados neste ano a partir de dados coletados no site da Casa em 29 de agosto;
Coligações eleitorais: alianças formadas entre partidos nas eleições de 2024 municipais com dados de candidatura registrados pelo TSE até 2 de setembro;
Votações na Câmara: padrão das votações dos deputados de acordo com o partido desde 2023 até 15 de agosto.
Técnicas estatísticas
Para analisar os dados sobre migrações partidárias, frente parlamentares e coligações eleitorais foi aplicada a técnica de Análise de Correspondência para extrair as principais tendências dos partidos. O posicionamento nas votações da Câmara foi obtido por meio do método estatístico da Teoria de Resposta ao Item em conjunto com o método de Monte Carlo, técnica matemática para lidar com dados faltantes, como no caso de deputados ausentes em votações
Classificação
Para cada medida, os partidos foram classificados com base em sua posição relativa. Esses rankings são então normalizados para uma escala de 1 a 100, onde 1 representa a posição mais à esquerda e 100 a posição mais à direita no espectro político. O posicionamento final de cada partido é determinado pela média aritmética simples dos quatro rankings normalizados. Os partidos são então ordenados com base nessa média e categorizados em grupos no espectro político.
Com um colete usualmente associado a operadores de mercado, Marçal faz campanha em SP - Nelson Almeida - 3.set.2024/AFP
O mercado financeiro já começou a testar o nome do influenciador digital Pablo Marçal (PRTB), fenômeno da hora na disputa pela Prefeitura de São Paulo, como eventual candidato na disputa presidencial de 2026.
Ao menos dois bancos de investimentos da Faria Lima, região em torno da avenida homônima que concentra sedes de instituições financeiras em São Paulo, encomendaram pesquisas de intenção de voto que incluem Marçal no rol de presidenciáveis.
Os levantamentos ainda estão em fase de elaboração de relatórios prévios à ida de pesquisadores a campo, segundo duas pessoas com conhecimento das tratativas disseram à reportagem.
Nada disso significa que Marçal seja um eventual candidato preferido do mercado a esta altura. Entre as obrigações de quem trabalha com investimentos está saber como cenários políticos afetam o ambiente econômico do país e, por isso, há o desejo aferir o tamanho nacional do nome do PRTB.
É muito cedo? Nunca é, segundo especialistas em pesquisas eleitorais. Marçal mesmo já tentou ser candidato a presidente em 2022, sem sucesso, e disse almejar o cargo. Na segunda (2), no programa Roda Viva, disse contudo que Lula só perde em 2026 se estiver morto e, neste caso, ele se vê favorito.
Ele saiu da obscuridade na disputa paulistana em maio, quando lançou-se de fato candidato, e empatou em primeiro lugar com Guilherme Boulos (PSOL) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB) há duas semanas, segundo levantamento do Datafolha.
Nova pesquisa do instituto confirmou o empate nesta quinta (5), após uma ainda maior radicalização de sua estratégia política e sua ausência no horário eleitoral gratuito, devido ao fato de o seu partido não ter representação congressual.
De qualquer modo, a grosseria e o discurso motivacional de Marçal, evidenciado no desrespeito a regras da Justiça Eleitoral e de organizadores de debates, o colocou em uma posição de destaque nesta largada da corrida municipal.
Politicamente, ele bebe na fonte e pesca no lago eleitoral do bolsonarismo, emulando itens da bem-sucedida campanha do então irrelevante deputado federal pelo Rio Jair Bolsonaro à Presidência em 2018: quase sem tempo de TV e rádio, com um discurso antissistema e apelando à agressividade.
Marçal dobra a aposta, e isso causou um transtorno para os políticos bolsonaristas, dado o apoio formal do ex-presidente ao Nunes nesta campanha. Isso gerou um curto-circuito, com Bolsonaro e seu filhos abrindo guerra ao influenciador.
Sem Bolsonaro, inelegível até 2030, por ora o pleito de 2026 se organiza em torno do presidente Lula (PT) ou algum indicado de seu campo e nomes da direita, como os dos governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), cada qual com seu grau de bolsonarismo.
Em 2018, Bolsonaro foi o dito candidato do mercado a partir do momento em que a postulação de Geraldo Alckmin, então no PSDB e ironicamente hoje vice-presidente do governo Lula (PT) pelo PSB, fez água apesar da enorme frente de partidos de centro e centro-direita a seu redor.
Um dos marcos do processo foi uma convenção do banco BTG, em fevereiro daquele ano, em que Bolsonaro saiu aplaudido de pé ao misturar a usual demagogia populista radical a promessas de liberalismo extremo se eleito.
O relato do evento pela Folha constrangeu alguns dos presentes: durante meses, buscavam negar o ocorrido. Mas a realidade se interpôs, especialmente após a confirmação do economista liberal Paulo Guedes como nome de Bolsonaro para gerir a economia.
A agenda mais radical de Guedes nunca foi implementada, mas obteve vitórias pontuais como a reforma da Previdência no primeiro ano do governo e a implantação da autonomia do Banco Central. Ao fim, a escalada autoritária e os desmandos de Bolsonaro na pandemia acabaram por torná-lo um ativo tóxico.
O pensamento econômico de Marçal, se existe, é insondável. Ele se move por frases de efeito que geram os tais “recortes” para vídeos em redes sociais, e suas referências à economia por ora se equivalem aos preceitos de autoajuda de seus cursos online e falas a canais de educação financeira.
Em vídeos, o influenciador diz ser dono de um banco. Segundo o site Metrópoles, na realidade o General Bank é um intermediário que cobra ilegalmente R$ 45 de clientes para abertura de contas em outras instituições. Marçal disse depois no programa Roda Viva que a entidade estava em “teste”.
A previsão é que a segunda semana de setembro seja a mais quente do mês - (crédito: Getty Images)
Uma forte onda de calor atinge o Brasil na primeira quinzena de setembro, segundo alguns dos principais institutos de meteorologia do Brasil. A previsão é de que os termômetros registrem temperaturas máximas entre 40°C e 45°C em alguns Estados nesse período.
Isso poderia elevar a média da temperatura para a época e pode tornar este um dos meses de setembro mais quentes já registrados no país. Mas por que isso acontece?
A BBC News Brasil ouviu especialistas para entender se isso é algo atípico e quais fenômenos estão causando esse calor fora do comum.
Segundo o MetSul Meteorologia, uma massa de ar quente está cobrindo boa parte do Brasil e vai ganhar ainda mais força nos próximos dias. A previsão é que ela se expanda e leve altas temperaturas inclusive para o sul do país, onde as temperaturas são mais amenas nesta época do ano.
Guilherme Borges, meteorologista do Climatempo, diz que ele e seus colegas de trabalho avaliam que não é possível fazer projeções de que possamos ter recordes históricos.
“Vai ser forte, mas não é possível dizer que vai bater temperatura. Não temos como afirmar isso com base nos modelos que usamos. O que enxergamos são temperaturas entre 40 e 44°C nos próximos dias. Será uma onda de calor importante”, diz.
Guilherme explica que essa onda de calor, chamada pelo MetSul de “bolha de calor”, é causada pela estabilização de uma massa de ar quente e alta pressão atmosférica em boa parte do país.
“Ela intensifica a formação do ar quente de cima para baixo dificultando a formação de nuvens de chuva e deixando o tempo mais seco.
Ele explica que é normal esse calor no mês de setembro e que em 2023 também houve uma onda de calor semelhante, mas que ocorreu na segunda quinzena do mês e não na primeira como agora.
“Isso é culpa das mudanças climáticas, que têm um papel significativo nesses extremos de calor e chuva. Isso ocorre porque nosso planeta tem que dimensionalizar energia. Essas ondas de calor e chuva extremos ocorrem para compensar esse aquecimento”, diz.
Falta um mês para o primeiro turno das eleições municipais deste ano, que ocorre no domingo de 6 de outubro.
Os eleitores vão às urnas para escolher prefeitos, vice-prefeitos e vereadores nas 26 capitais brasileiras e nas outras mais de 5,5 mil cidades do país.
O segundo turno, caso necessário, acontece no último domingo do mês, dia 27 de outubro, somente nas cidades com mais de 200 mil eleitores.
Com base principalmente em materiais informativos divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), a BBC News Brasil responde abaixo a perguntas sobre as eleições deste ano.
Como votar nas eleições?
É importante se preparar com antecedência não só para escolher bem seus candidatos, mas também para saber seu local de votação. É possível descobrir isso no site do TSE ou no aplicativo e-Título. Os TREs também oferecem atendimento presencial e por telefone ao público.
O TSE estimula que o eleitor leve junto consigo para a urna uma colinha eleitoral com os números de seus candidatos.
Com quantos anos posso votar?
Já pode votar quem tem 16 e 17 anos, mas nesses casos, o voto é facultativo. A partir dos 18 anos, o voto é obrigatório. Essa regras valem para idades atingidas na data da votação.
O voto também é facultativo aos maiores de 70 anos e aos analfabetos.
Posso votar em outra cidade?
Todo eleitor tem seu domicílio eleitoral, que na prática, é um município. Não é possível estar vinculado a mais de um domicílio eleitoral ao mesmo tempo.
Nas eleições municipais não há possibilidade de voto em trânsito, como ocorre nas eleições para presidente da República e governador.
Portanto, quem não estiver no seu domicílio eleitoral e não puder votar deverá justificar a ausência no dia da votação.
Posso votar com o RG?
De acordo com o site do TSE, o eleitor que souber seu local de eleição pode votar apenas com um documento oficial com foto, sem exigência do título de eleitor.
Com ou sem título em mãos, são aceitos como documento oficial com foto: carteira de identidade, passaporte, carteira de categoria profissional reconhecida por lei, certificado de reservista, carteira de trabalho ou carteira nacional de habilitação.
Também é possível usar o e-Título. Mas essa possibilidade só é válida se a sua foto aparecer no aplicativo. Caso não esteja aparecendo, não será considerado válido para votar.
Certidões de nascimento e casamento não valem como documento para votar.
Posso usar o celular na hora do voto?
O eleitor não poderá ingressar na cabine de votação portando celular, máquinas fotográficas e filmadoras. Caso descumpra essa regra, pode ter de pagar multa de até R$ 15 mil e ser preso. Nada de selfies ou gravações do voto na urna, portanto.
Se eu votar só para um dos cargos em disputa, meu voto é invalidado?
Não. Cada voto é contabilizado separadamente e um não invalida os demais.
Qual a diferença entre voto branco e nulo?
Não há diferença entre voto branco e voto nulo para a contagem dos votos, ambos são excluídos da totalização dos resultados.
O eleitor vota em branco quando pressiona a tela branca da urna eletrônica e confirma. Já o voto nulo ocorre quando há erro de digitação. Se o eleitor digitar um número que não corresponda a partido ou candidato, o voto é anulado.
Quando sai o resultado das eleições?
Como a votação é feita por meio da urna eletrônica, o processo de apuração é relativamente rápido.
A apuração começa a ser divulgada a partir das 19h de Brasília.
De cima, num registro de uma imagem de satélite, o conjunto de estradas de chão que rasgam a floresta e abrem caminho para o pasto se assemelha a uma espinha de peixe. Em solo, o cenário é de terra arrasada, de destruição ampla e contínua, sentida por olhos, nariz e pele.
Os ramais —como são chamadas essas estradas— garantem o acesso a imóveis rurais e a invasões tomadas pelo gado, até a borda da Floresta Nacional de Jacundá, na região de Candeias do Jamari, em Rondônia. A espinha de peixe está a 65 km da capital Porto Velho.
Ao longo dos ramais, estão posseiros, invasores, grileiros e produtores rurais que se dizem proprietários das áreas.
Árvores mortas em meio à fumaça de queimadas às margens da BR-364 no distrito de Mutum Paraná, em Porto Velho, Rondônia, nesta segunda (2) – Lalo de Almeida/Folhapress
O fogo queima pasto e vegetação secos, as chamas ainda estão acesas em diferentes pontos nas margens dos ramais, fuligem se espalha pelo solo e o horizonte de fumaça é cinza —algo opaco, a se perder de vista, que impede os olhos de alcançarem formatos e decifrarem o que existe a poucos metros. O cheiro de algo defumado impregna o corpo. O ar é irrespirável.
É esse um dos principais pontos de origem das ondas de fumaça que invadem Porto Velho há semanas e que transformam a cidade num dos piores lugares para se respirar no mundo. A reportagem da Folha esteve na região.
A qualidade do ar é considerada perigosa por dias seguidos, a cidade está tomada por fumaça há semanas e há em Porto Velho o mesmo horizonte opaco e o mesmo cheiro característicos da região de ramais próximos à Floresta de Jacundá.
A vida das pessoas na cidade virou um martírio. Passou a ser frequente o recuo de aviões no ar em razão da impossibilidade de se pousar no aeroporto, diante da invisibilidade provocada pela fumaça. Voos são cancelados por dias sucessivos, e moradores de Rondônia precisam esperar por até seis dias para voltarem a suas casas, até conseguirem vagas em aviões que consigam pousar na cidade.
Problemas de saúde se avolumam, especialmente respiratórios. A rotina de muitos foi alterada. O 7 de Setembro, por exemplo, não vai existir. O desfile foi cancelado pelo governo do estado em razão dos riscos de exposição das pessoas à fumaça e da completa ausência de perspectiva de mudança do cenário.
Moradores pescam sob a ponte do rio Madeira em Porto Velho, em meio à fumaça das queimadas que há dias cobre a capital de Rondônia; rio Madeira atingiu o menor nível desde que começou a ser monitorado, em 1967 – Lalo de Almeida/Folhapress
O estado é um dos mais desmatados e degradados no bioma amazônia. O governador Marcos Rocha (União Brasil) é um dos mais bolsonaristas da região e já se recusou, por exemplo, a endossar uma carta com compromisso de desenvolvimento sustentável na amazônia.
Ele estimula o avanço de um projeto de desenvolvimento da Amacro (região que engloba Rondônia, Acre e sul do Amazonas), que é um dos principais arcos de devastação da amazônia. Boa parte de unidades de conservação estaduais está invadida por posseiros e grileiros, com conivência do governo local.
Em Rondônia, Bolsonaro teve 70,66% dos votos no segundo turno da disputa presidencial em 2022.
Entre moradores de Porto Velho e região, há um clima de indiferença e aceitação, como se a crise climática vivenciada no lugar não tivesse relação com o processo de ocupação irregular e predatória da floresta. É comum entre moradores e autoridades locais a repetição do discurso de que a fumaça provém substancialmente do sul do Amazonas e do Pará.
Não se viram queimadas e ondas de fumaça ao longo dos anos em Rondônia como as vivenciadas na estação de seca em 2024, segundo agentes do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
O fogo se alastra em mais um ano de seca extrema, com níveis de rios da região —especialmente o rio Madeira, que passa por Porto Velho— atingindo mínimas históricas. A crise é causada pela soma de diferentes fatores, como o El Niño, que é o aquecimento acima da média no oceano Pacífico, as mudanças climáticas e a degradação da amazônia em diferentes pontos.
As imagens de satélite que o Ibama em Rondônia utiliza para monitorar fogo e fumaça mostram que as queimadas começaram a ganhar força no fim de julho, em unidades estaduais de conservação, onde são comuns as invasões por posseiros.
No começo de agosto, essas imagens apontavam fumaça proveniente da Bolívia e do sul do Amazonas. Mais alguns dias, e Mato Grosso e Pará também contribuíram com ondas de fumaça.
A situação seguiu piorando ao longo de agosto e ganhou contornos críticos a partir do dia 22, com queimadas sem controle no próprio estado de Rondônia. A tomada por fumaça, em níveis considerados perigosos à saúde humana, é uma realidade em praticamente todo o estado.
Na região que responde por uma parte substancial da fumaça que invade Porto Velho, o fogo segue consumindo a vegetação. É uma forma barata de limpar um pasto para gado, abrir uma área, garantir uma ocupação.
A espinha de peixe formada por um conjunto de ramais amplia ocupações e imóveis até bem próximo da Floresta Nacional de Jacundá, uma unidade de conservação federal. Esses ramais têm como referência a Vila Nova de Samuel, o entroncamento urbano mais próximo.
Na região, na qual a vegetação é comida pelo fogo por dias, o sol não incomoda os olhos e quase não há barulho. Os incêndios e as ondas de fumaça afastaram o movimento de carros e motos.
Segundo o Ibama e moradores, o ponto de partida para o avanço de posseiros foi a existência de um assentamento rural, que acabou desvirtuado.
“Todo mundo aqui tem contrato de compra e venda. Eu, por exemplo, comprei a posse e as benfeitorias de um assentado”, afirma Moisés Dias da Cruz, 23, que vive na região com a mulher e duas filhas, uma de 4 anos e outra de 4 meses. As meninas passam os dias num quarto com ar-condicionado, em razão das ondas de fumaça. Tudo pegou fogo ao redor da casa de Cruz.
“O fogo e a fumaça em 2024 estão piores, porque está seco demais”, diz ele, que vive na região da linha LP45 —um dos ramais que cortam o que já foi floresta— desde 2020. “A maioria é incêndio criminoso. Aparece o fogo e sai todo mundo tentando apagar. Já são 20 dias seguidos de fumaça.”
Em outros ramais, há fazendas de maior porte. Na LP45, predomina a “posse mansa”, termo usado pelos moradores para designar a compra de uma posse e de benfeitorias.
No caminho do ramal, há colunas gigantes de fumaça, provenientes de queimadas recém-iniciadas. O predomínio é de uma fumaça contínua, duradoura, densa, que esconde os próprios focos de incêndio detectados por satélites. O vento carrega a brasa e alastra o fogo por áreas de floresta.
O superintendente do Ibama em Rondônia, César Guimarães, afirma que os 205 brigadistas do Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais) estão concentrados em unidades de conservação federais e em terras indígenas.
“O fogo é criminoso, não existe fogo natural”, diz Guimarães. “Nada é mais barato do que um palito de fósforo.”
Há queimadas em todo o estado, com uma forte densidade de fumaça, e uma crise hídrica, em que 18 municípios declararam emergência, segundo Jaime Fernandes, coordenador operacional da Defesa Civil de Rondônia. “Os focos de incêndio são anormais, e deve haver reforço de bombeiros de outros estados.”
Desde 1º de agosto, Rondônia registrou mais de 5.000 focos de calor, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Os estados na Amazônia que lideram em queimadas são Pará (quase 17 mil), Amazonas (11,4 mil) e Mato Grosso (8.700).
Gases tóxicos produzidos pelas queimadas contribuíram para a péssima qualidade do ar em Rondônia nas últimas semanas - (crédito: Divulgação/PF)
A Polícia Federal (PF) realizou a Operação Kaixé nesta terça-feira (3/9) para identificar os responsáveis pelos crimes ambientais ocorridos nas áreas públicas Parque Estadual de Guajará-Mirim, Reserva Extrativista (Resex) do Rio Ouro Preto e Terra Indígena Igarapé Lage. As áreas pertencem aos municípios de Guajará-Mirim e Nova Mamoré, Rondônia (RO).
No Parque estima-se que 72 mil hectares tenham sido queimados, chegando a um máximo de 3 mil hectares por dia. Comparando a área queimada com a área do parque, aproximadamente 35% foram queimados
“Essas três áreas públicas fazem parte do grande Corredor Ecológico [grandes faixas de ecossistemas interligadas entre si] Binacional Guaporé/Itenez-Mamoré e possuem histórico de invasão clandestina e de ocupação ilegal, o que favorece a ação dos criminosos”, explicou a PF-RO.
Os responsáveis podem ser condenados pela prática dos crimes de incêndio em floresta ou vegetação; de incêndio com perigo a integridade física de pessoas em pastagem, mata ou floresta; de poluição atmosférica com danos diretos à saúde da população e de associação criminosa. Também podem sofrer impedimento ou dificuldade de navegação aérea, ficando sujeitos a penas de até 25 anos de prisão.
Os grandes volumes de gases tóxicos produzidos pelas queimadas nos locais contribuíram para a péssima qualidade do ar aferida nas últimas semanas em Rondônia, bem como contribuíam para os cancelamentos de mais de 40 voos no aeroporto de Porto Velho (RO) no último mês.
A Operação Kaixé contou com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Batalhão de Polícia Ambiental (BPA) e da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam).
Reza a lenda que, na época das antigas tribos amazônicas, uma grande escassez de alimentos assolou a região. Para salvar seu povo, o cacique Itaki ordenou que todas as crianças nascidas fossem sacrificadas, incluindo sua própria filha, Iaçã. Em seu desespero, Iaçã chorou ao pedir aos deuses que mostrassem uma solução. Uma noite, ela ouviu o choro de um bebê e seguiu o som até encontrar uma palmeira carregada de frutos negros e brilhantes. Iaçã morreu de emoção ao pé da árvore, e o cacique, em sua homenagem, nomeou a fruta de açaí, que é o nome de sua filha invertido. Desde então, o açaí tornou-se um símbolo de vida e fartura para o povo da Amazônia.
Hoje, o açaí é muito mais do que uma lenda. Ele é um verdadeiro tesouro que tem conquistado paladares no Brasil e no mundo. No Dia do Açaí, celebrado em 5 de setembro, é o momento de descobrir as curiosidades e os benefícios dessa maravilha da natureza.
Rico em antioxidantes, o açaí é conhecido por combater o envelhecimento precoce e fortalecer o sistema imunológico. Além disso, é uma excelente fonte de energia, ideal para quem pratica atividades físicas ou busca uma alimentação mais nutritiva. Seus benefícios são amplos e abrangem todas as idades, desde crianças em fase de crescimento até idosos que desejam manter uma vida ativa e saudável.
Seja como parte de uma refeição ou em preparações mais elaboradas, o açaí se destaca por sua versatilidade. No Norte do Brasil, é consumido em sua forma pura, como guarnição, acompanhando pratos como peixes, camarão, charque e farinhas d’água e de tapioca. Em outras regiões, ele é frequentemente servido como sobremesa, com a adição de açúcares, frutas, leite em pó e outros condimentos doces.
Em São Paulo, o chef Pedro Amaral, que comanda o Restaurante Namazônia, é um defensor do açaí em sua forma mais autêntica. “Essa fruta é uma joia da Amazônia, e sinto como uma missão poder servi-la em meu restaurante, permitindo que os paulistanos e estrangeiros provem essa delícia que faz parte do cotidiano do nortista”, afirma Pedro. O fruto, 100% orgânico, chega semanalmente do Pará, garantindo frescor e preservando suas propriedades nutricionais. Para quem deseja experimentar o açaí como ele é consumido na Amazônia, a visita ao restaurante é uma oportunidade de vivenciar essa experiência única.
Versátil, o açaí pode ser incorporado em sobremesas, smoothies e até em bebidas proteicas, sem perder suas características originais. Neste Dia do Açaí, o convite é para redescobrir essa fruta tão brasileira, que une sabor, saúde e tradição em cada colherada.
Pela primeira vez em 185 anos, Batatais, a 355km de São Paulo, terá uma eleição com candidato único - (crédito: Prefeitura de Batatais/Divulgação)
O primeiro turno das eleições municipais está marcado para 6 de outubro, mas os moradores de 214 municípios já sabem o nome do próximo prefeito. Essas cidades vivem o fenômeno do candidato único, como mostra o levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM). É o maior número de candidaturas únicas na série histórica (de 2000 a 2024) e representa 4% dos municípios. Em 49%, a disputa se dará entre dois candidatos, apenas.
O número de candidatos únicos é quase o dobro do verificado em 2020 (117). Não há na legislação brasileira nenhum dispositivo que invalide uma eleição por haver apenas um candidato nem exigência de um percentual mínimo de comparecimento de eleitores. O candidato único só precisa, na prática, do seu próprio voto para ser eleito. A população desses municípios é de, em média, 6,7 mil habitantes. O menor é Borá, no interior de São Paulo, com 928 moradores. A maior, também no interior paulista, é Batatais, com 59,8 mil moradores.
Há uma tendência geral de queda no número de candidaturas. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), este é o ano com o menor número de concorrentes para os cargos de prefeito, vice-prefeito e vereadores desde 2008. Os registros seguiram em crescimento até 2020, quando superaram meio milhão de candidatos. Em 2024, foram pouco mais de 450 mil, uma diminuição de 100 mil candidatos — mesmo com a população em expansão. De 2008 para cá, o Brasil passou de 192,7 milhões para 212,6 milhões de habitantes, distribuídos em 5.570 cidades.
Para o cargo de prefeito, o número de candidatos caiu 20%, e é o menor desde 2004. “Não há, ainda, nenhum estudo que explique essa redução, mas, possivelmente, se dá pela aparição da federação partidária”, explica o advogado Luiz Eduardo Peccinin, especialista em direito eleitoral. Essa é uma novidade para essas eleições municipais. Instituída em 2021, pela Lei nº 14.208, o modelo de federação estabelece critérios bem definidos sobre atuação conjunta das agremiações, como obrigar os partidos a atuar em conjunto por, no mínimo, quatro anos.
Outra justificativa faz referência a disputas pelo poder, como conta o professor de direito da Universidade de Brasília (UnB) Ademar Costa Filho. “Em cidades pequenas, por regra, não há disputa de poder político, tanto que há um índice significativo de prefeitos se reelegendo. Isso nos diz que essas pessoas concentram em si o poder político. A Câmara de Vereadores, em regra, não tem grandes problemas que causam divisão política, como plano diretor e demandas complexas relacionadas à saúde, como acontece em grandes cidades”, teoriza.
O fluxo do dinheiro também está entre as causas, segundo os especialistas. Costa Filho aponta o fim do financiamento eleitoral de empresas como um dos motivos. “Os partidos políticos dão preferência à alocação de recursos nos grandes centros. Por isso, há um aumento de candidatos únicos ou uma diminuição na concorrência pela presidência das prefeituras”, explica.
Batatais
Uma situação inédita nos 185 anos de história de Batatais, a 355km de São Paulo. Com uma população muito acima da média dos municípios com candidaturas únicas, os 31 mil eleitores vão às urnas apenas para seguir o protocolo. O candidato “já eleito” é o atual prefeito, Luis Fernando Benedini Gaspar Junior, conhecido como Juninho Gaspar, do Progressistas (PP). Ele se diz surpreso com a ausência de competitição. “É bem estranho não termos adversários para fazer uma discussão ideológica ou de propostas. Dois partidos que fazem oposição à nossa candidatura têm dois ex-prefeitos, então, esperávamos por uma disputa acirrada”. Segundo o atual prefeito, dos 172 candidatos a vereador, 32 são oposição e 144 o apoiam.
Em 2020, Juninho Gaspar elegeu-se com 59,84% dos votos, em disputa com mais três concorrentes.
Para Maraisa Simão, candidata do PCdoB à Câmara Municipal de Batatais pela primeira vez, a reeleição do prefeito é positiva. “Ele entra na casa do munícipe, senta, toma cafezinho. E isso se estende aos partidos políticos também. Ele praticamente ficou unânime aqui, são 13 partidos apoiando, tanto de esquerda quanto de direita, além do Centrão, do partido dele”, diz a candidata do campo da esquerda.
O desafio, para candidato sem adversário, é motivar os eleitores a irem às urnas. “Na TV e no rádio, estamos fazendo campanha como se tivéssemos adversários, fazendo novas propostas, tentando sempre conscientizar as pessoas de que o voto é importante”, disse Juninho.
Para o ex-prefeito de Batatais José Luis Romagnoli, do PSB, a cidade perde com essa unanimidade. “Lamento que a classe política atual, vereadores e partidos tenham feito essa grande coligação. Faltou discutir sobre uma oposição. Se tem um lado só, é muito ruim para a cidade, para a população e para a própria democracia.”
A população de Porto Velho, capital de Rondônia, teve que mudar drasticamente a rotina nas últimas semanas por causa da fumaça das queimadas que tomaram a região. A cidade tem a pior qualidade do ar do país, segundo o índice do IQAir e teve que cancelar cerca de 30 voos em quatro dias em função da baixa visibilidade gerada pela fumaça.
Atenta a esse cenário sufocante, a artista Gabriê lançou neste domingo (1/9) um manifesto em forma de música e vídeo contra o sufocamento e invisibilidade provocados pela fumaça na região. O vídeo exibe pontos históricos e turísticos de Porto Velho encobertos e praticamente apagados de pela fumaça.
Na música Da Beira, a compositora também reflete sobre o baixo engajamento na projeção do sofrimento da população do Norte diante dos crimes ambientais e incêndios de grandes proporções que têm devastado a vegetação e prejudicado a saúde da população.
Gabriê explicou que a música está em processo de produção há algum tempo e seria lançada no próximo disco, mas a divulgação foi antecipada para que pudesse ser usada como instrumento de alerta e cobrança sobre a atual situação de Rondônia. “Eu acredito que a arte é uma ferramenta de mudança, ela também é denúncia, grito de alerta, de socorro. Então a gente tá vivendo um cenário tão caótico e apocalíptico em Porto Velho que eu pensei: ‘eu acho que essa mensagem precisa ser ouvida para que esse tema possa reverberar no Brasil” refletiu a artista.
Gabriê, que carrega regionalidades em seu trabalho, sob um ponto de vista romântico e moderno, afirma ainda que a composição reflete a marginalidade de quem vive à beira do rio e à beira do progresso. “A música é bem especpifica para o nosso cenário beradeiro de Rondônia, fala que a gente está à beira de um sonho, à beira de um mapa, à beira do Rio Madeira, que beira é essa? A música faz uma alusão sobre a margem, tudo que é marginal. Mas na verdade pra gente que é daqui é um grito de resistência”, ponderou.