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A burocracia bate à porta do campo: como a reforma tributária ameaça pequenos produtores rurais

Imagine o Seu João, pequeno produtor de milho que até 2025 emitia suas notas fiscais em papel (aquela nota modelo 4) ou ia até a prefeitura pedir uma nota avulsa quando precisava vender sua produção. Simples, rápido, sem complicação. A partir deste ano de 2026, acabou. Seu João precisará ter CNPJ obrigatório, certificado digital (aquele e-CPF que custa dinheiro e precisa renovar todo ano) e emitir nota fiscal eletrônica pelo computador ou celular.

Pois bem, o que muda na prática:

O agronegócio brasileiro em 2026 atravessa uma transformação que pode redefinir quem fica e quem sai do jogo. A Reforma Tributária, vendida sob o discurso da simplificação, impõe a obrigatoriedade do CNPJ para todos os produtores rurais e decreta o fim gradual da Inscrição Estadual até dezembro de 2032. O que deveria ser modernização revela-se, na prática, uma revolução silenciosa que pode excluir milhares de pequenos agricultores do mercado formal.

A questão não está na digitalização em si, mas no ritmo brutal de sua implementação. Enquanto grandes produtores e agroindústrias já operam há anos com estruturas contábeis sofisticadas, pequenos agricultores precisarão dominar certificação digital, emissão de notas fiscais eletrônicas e sistemas tributários complexos — tudo isso em meses. O ano de 2026 funciona como período de transição, mas os prazos apertados expõem um descompasso cruel entre ambição legislativa e realidade operacional do campo brasileiro.

O artigo 59 da Lei Complementar 214/2025 estabelece identificação única por CNPJ para todas as pessoas com atividade econômica. A Inscrição Estadual será extinta até 31 de dezembro de 2032, mas a obrigatoriedade prática começa já em 2026, quando produtores precisarão emitir notas fiscais eletrônicas no novo sistema.

Para acomodar o volume de novos registros, a Receita Federal criará o “CNPJ alfanumérico”, combinando letras e números. Produtores que nunca tiveram CNPJ enfrentam não apenas uma formalidade cadastral, mas uma completa reconfiguração de sua relação com o fisco. O problema é que poucos dominam ferramentas digitais básicas, quanto mais sistemas de emissão de NF-e.

Quem emitia notas fiscais em papel (modelo 4) ou utilizava a Nota Fiscal Avulsa Eletrônica de forma simplificada agora precisa dominar certificação digital, vinculação de e-CPF, séries numéricas específicas e softwares compatíveis com normas estaduais e federais. A fiscalização sobre o produtor pessoa física será tão rigorosa quanto a de uma empresa, alertam especialistas. Embora a lei assegure a condição de pessoa física para efeitos tributários, as exigências operacionais os equiparam a empresas.

Ferramentas como o aplicativo Nota Fiscal Fácil e o Provedor de Assinatura e Autorização, que permite sindicatos assinarem digitalmente notas em nome de associados, são apresentadas como soluções. Mas exigem familiaridade com smartphones, tablets e conectividade — recursos nem sempre disponíveis em regiões remotas do Brasil rural.

Caros leitores, o termo “simplificação” aparece repetidamente nos discursos oficiais. A experiência prática mostra o oposto. Quem entrar nesse processo sem planejamento corre risco de enfrentar problemas fiscais futuros. Para grande parte dos pequenos produtores rurais, “planejamento” significa escolher entre contratar um contador — despesa que pode comprometer margens de lucro — ou arriscar-se sozinho em um sistema fiscal cada vez mais complexo.

A questão se agrava para produtores com propriedades em diferentes estados. Vamos a um exemplo: Seu Carlos, produtor de café no sul de Minas que tem terras também no Espírito Santo (herança do pai). Hoje ele tem duas Inscrições Estaduais, uma em cada estado. Com a mudança, ele vai precisar de um CNPJ matriz (da propriedade principal) e outro CNPJ filial (da propriedade no outro estado). Parece simples? Só no papel. Na prática, significa documentação dobrada, mais custos com contador e risco de confusão na hora de declarar impostos.

A recomendação técnica é estruturar CNPJs de propriedades externas como filiais, mantendo a mesma composição societária. Para um agricultor familiar com terras herdadas em estados diferentes, isso representa uma maratona burocrática que demanda recursos e tempo que ele simplesmente não tem.

Um dos aspectos mais preocupantes da Reforma é a desigualdade digital que ela escancara. Enquanto grandes produtores possuem departamentos contábeis e sistemas integrados, pequenos agricultores enfrentam dificuldades básicas de acesso à internet. Dados do IBGE mostram que apenas 53% dos domicílios rurais brasileiros possuem internet. Como exigir emissão obrigatória de nota eletrônica de quem mal consegue acessar a rede?

A obrigatoriedade do certificado digital (e-CPF) representa mais um custo. Embora relativamente acessível em centros urbanos, em regiões remotas sua obtenção exige deslocamento, tempo e dinheiro — barreiras concretas para quem vive da agricultura de subsistência ou pequena escala.

Não se pode negar que modernizar o sistema tributário agrícola é necessário. Rastreabilidade, integração de dados fiscais e profissionalização da gestão são benefícios reais. O problema não é o destino, mas o caminho escolhido.

Uma reforma verdadeiramente inclusiva deveria ter começado por investimentos massivos em infraestrutura digital no campo, capacitação técnica dos produtores e um período de transição mais longo. Em vez disso, optou-se por impor mudanças estruturais em prazos apertados, transferindo para os agricultores — especialmente os menores — o custo e o risco da adaptação.

Experiências internacionais mostram que digitalizações fiscais bem-sucedidas no setor agrícola foram precedidas por anos de preparação, com investimento público em educação digital e infraestrutura. No Brasil, espera-se que produtores se adaptem em meses a mudanças que deveriam ter sido preparadas ao longo de anos.

A Reforma Tributária corre o risco de aprofundar desigualdades no campo ao exigir adaptações que favorecem grandes produtores e punem os pequenos.

Há urgência em reconhecer as assimetrias do campo brasileiro. Isso significa investir em assistência técnica gratuita, garantir acesso universal à internet rural, prorrogar prazos de adaptação e criar mecanismos de proteção para pequenos produtores. Caso contrário, o que se anuncia como “simplificação” tributária pode se transformar em mais um fator de concentração de terra e renda no agronegócio brasileiro.

A história mostrará se 2026 foi o ano em que o campo brasileiro deu um salto de modernização ou o momento em que milhares de pequenos produtores foram empurrados para fora do mercado formal. A pergunta permanece sem resposta — mas o relógio está correndo, e a conta será cobrada dos mais vulneráveis.

Charlene de Ávila é Advogada, Mestre em Direito Empresarial, Consultora Jurídica em propriedade intelectual na agricultura do Escritório Néri Perin Advogados Associados. Atua na análise jurídica das relações entre patentes de invenção, proteção de cultivares, biotecnologia agrícola e direitos dos agricultores, com especial atenção aos impactos institucionais, legais e econômicos do sistema de propriedade intelectual no agronegócio.

 

Néri Perin é Advogado Agrarista, especialista em Direito Tributário e em Direito Processual Civil pela UFP. Diretor Administrativo da Neri Perin Advogados Associados – Brasília- DF.

Exportações da piscicultura nacional se mantêm estáveis, mesmo com tarifaço dos Estados Unidos

O ano de 2025 teve pequenas alterações em relação ao anterior no que se refere às exportações brasileiras no setor de piscicultura. Ao mesmo tempo, houve leve aumento de 2% na movimentação financeira, que foi maior que U$ 60 milhões em 2025, e queda de 1% na quantidade exportada, que foi de quase 13,7 mil toneladas no ano passado. Portanto, o sentimento final foi de estabilidade. Tudo isso num cenário que, por conta do tarifaço de 50% imposto pelo governo dos Estados Unidos, mostrava-se negativo.

No entanto, o impacto real foi menor que o esperado. Quem explica é Manoel Pedroza, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura (Palmas-TO): “o tarifaço começou a valer no mês de agosto e isso impactou as exportações do terceiro e do quarto trimestres de 2025, que caíram respectivamente 28% e 34% comparadas com 2024. Ainda assim, no acumulado de 2025 as exportações totais aumentaram 2% em valor devido ao bom desempenho verificado entre os meses de janeiro e julho”.

A principal categoria de produtos exportados, formada por filés frescos ou refrigerados, teve aumento de 12% em volume financeiro entre os dois anos, evoluindo de U$ 36,6 milhões em 2024 para U$ 41,1 milhões no ano passado. Já a categoria formada por peixes inteiros congelados, a segunda mais importante, caiu 27% em volume financeiro, indo de U$ 17,6 milhões em 2024 para U$ 12,9 em 2025. As demais quatro categorias apresentaram volumes menores. Mesmo assim, chama a atenção o crescimento de 245% no volume da categoria de filés congelados, que passou de U$ 3 milhões em 2025.

Destaques

Manoel aponta a queda das exportações de tilápia brasileira para os Estados Unidos como o principal destaque do ano passado. “Isso levou as empresas a buscarem novos mercados, destacando-se o aumento dos embarques de tilápia para o Canadá (+108%) e a retomada das vendas de tilápia para o México”, explica. E continua dizendo que “o crescimento das exportações de filés congelados de tilápia (+421%) foi outro destaque, o que indica uma possível estratégia para acessar novos mercados voltados a esse produto”.

O pesquisador ainda destaca “as importações de filé de tilápia vindas do Vietnã, que atingiram US$ 1,5 milhão (374 toneladas), sendo a terceira espécie da piscicultura mais importada pelo Brasil, após o salmão e o pangasius”. Com relação ao destino das exportações, os Estados Unidos continuaram na liderança, com 87% do peixe que o Brasil comercializou em 2025. Foram mais de U$ 52,1 milhões. Valores bem acima dos comercializados com o Canadá, segundo principal destino: menos de U$ 2,4 milhões no ano passado.

Essas e outras informações estão disponíveis gratuitamente no Informativo de Comércio Exterior da Piscicultura, que pode ser acessado neste link. A edição 24, que acaba de ser publicada, refere-se a 2025. O informativo tem periodicidade trimestral e a Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR) é parceira na elaboração. O boletim é resultado do projeto BRS Aqua, coordenado pela Embrapa.

Para este ano, Manoel entende que “caso o tarifaço dos Estados Unidos se mantenha, é provável que haja uma redução nas exportações da piscicultura comparadas com 2025. Apesar dos exportadores já estarem buscando novos mercados, é muito difícil encontrar no curto prazo outros países importadores que absorvam o mesmo volume dos EUA”.

Segundo ele, “o mercado europeu seria uma alternativa, porém ainda não há uma perspectiva concreta de reabertura das exportações do Brasil. O recente acordo comercial assinado entre o Mercosul e a União Europeia prevê zerar os impostos sobre os pescados exportados para a Europa, o que trará mais competitividade aos produtos da piscicultura do Brasil quando as exportações forem retomadas”.

 

Clenio Araujo
Embrapa Pesca e Aquicultura

Pescador entra em igarapé considerado um dos mais perigosos da Amazônia e expõe risco e encontro com sucuris gigantes

Um vídeo que circula nas redes sociais tem chamado a atenção pelo alto nível de perigo envolvido. O pescador João Cordeiro, de Rondônia, entrou em um igarapé descrito por ele como um dos mais perigosos da Amazônia, um ambiente conhecido por ser habitat natural de sucuris gigantes e anacondas.

 

Nas imagens, é possível ver a água fechada, a vegetação densa e o clima de total silêncio da floresta características típicas de locais onde grandes predadores se escondem. Em determinado momento do vídeo, João mostra claramente a presença de várias cobras, evidenciando o risco real enfrentado por quem entra nesse tipo de ambiente.

 

Segundo o pescador, não se trata de aventura, mas de um território onde a natureza impõe suas próprias regras. “Quem entra, entra sabendo, a natureza não perdoa”, relata João no vídeo, reforçando o respeito e o cuidado necessários ao frequentar áreas selvagens da Amazônia.

 

VEJA O VÍDEO: 

Empreendedora rondoniense compartilha desafios e conquistas da cocada artesanal em entrevista ao Rondorural

Elianete contou que todos participam do processo produtivo e administrativo, reforçando o caráter familiar da cocada
Elianete contou que todos participam do processo produtivo e administrativo, reforçando o caráter familiar da cocada

Durante o programa Rondorural, exibido ao vivo pela Rádio Conecta 107.9 FM, os jornalistas Eduardo Kopanakis e Jean Carla Costa conduziram uma entrevista especial com a empreendedora rondoniense Elianete Gomes, conhecida pela produção da tradicional cocada artesanal Agrokolly, símbolo de identidade, sabor e história familiar de Rondônia.

Na conversa, Elianete falou sobre a mudança da família para o Rio Grande do Norte, motivada principalmente pela busca de matéria-prima em abundância, especialmente o coco, essencial para a produção do doce. Segundo ela, em Rondônia a dificuldade de acesso ao insumo limitava a produção, enquanto no Nordeste há maior oferta, melhor rendimento e custos mais baixos.

Apesar da vantagem logística, a empreendedora destacou que a principal dificuldade enfrentada atualmente é a inserção do produto no mercado local, marcado por alta competitividade e preços mais acessíveis. “A concorrência não é na qualidade, mas no valor. Nosso produto é diferenciado, artesanal, familiar, e isso tem um custo que não permite competir apenas por preço”, explicou.

O diálogo também abordou educação e identidade rural, destacando a importância de uma formação que una conhecimento técnico e valores humanos
O diálogo também abordou educação e identidade rural, destacando a importância de uma formação que una conhecimento técnico e valores humanos

Elianete ressaltou ainda que, mesmo com a produção sendo realizada no Rio Grande do Norte, a sustentabilidade financeira do negócio continua fortemente ligada a Rondônia, onde a cocada Kolly mantém uma clientela fiel e presença constante em estabelecimentos comerciais de Porto Velho, por meio do apoio da família, especialmente de sua irmã Elisabeth, que atua como representante da marca no estado.

Durante a entrevista, também foi destacada a importância da família como base do empreendimento. Elianete contou que todos participam do processo produtivo e administrativo, reforçando o caráter familiar da cocada, um dos diferenciais do produto. “Sem minha família, eu não teria conseguido continuar”, afirmou.

Elianete Gomes ainda levou um gesto de carinho aos jornalistas, presenteando-os com cocada vinda diretamente do Rio Grande do Norte.
Elianete Gomes ainda levou um gesto de carinho aos jornalistas, presenteando-os com cocada vinda diretamente do Rio Grande do Norte.

O bate-papo também abordou educação e formação, com destaque para a experiência da filha em uma escola técnica rural em Rondônia, reconhecida pela estrutura, ensino de valores e atividades culturais, como o coral estudantil.

A entrevista foi ao ar em edição especial do Rondorural, em comemoração aos 111 anos de Porto Velho, celebrando histórias de superação, empreendedorismo e identidade rondoniense. A programação contou ainda com interação ao vivo pelas redes sociais e participação musical do cantor Luan Maia, reforçando o vínculo do programa com o público do campo e da cidade.

O Rondorural vai ao ar todos os sábados pela Rádio Conecta 107.9 FM, levando informação, histórias que valorizam a agricultura familiar e dos empreendedores que ajudam a construir Rondônia.

Show Rural Coopavel terá os maiores estandes de sua história em 2026

38º Show Rural Coopavel, que ocorre de 9 a 13 de fevereiro, terá os maiores estandes já montados em sua história.

A ampliação das estruturas reflete o aumento do investimento dos expositores e consolida o evento como um dos três maiores encontros técnicos do agronegócio mundial.

Entre os estandes com maior área construída, a Jacto lidera com 3,6 mil metros quadrados, seguida pela John Deere, que ocupa 2.850 metros quadrados.

Segundo a organização da feira, a Stara aparece com 2.250 metros quadrados, enquanto a Kuhn investiu em uma estrutura de 2,1 mil metros quadrados.

A Jan ocupa 1,3 mil metros quadrados, e a Baldan completa a lista com um estande de 1,2 mil metros quadrados.

Lotes maiores ampliam áreas de demonstração

Quando o recorte é a metragem total dos lotes, os números também chamam atenção.

A Jacto ocupa uma área de 4.026 metros quadrados no parque. Em seguida aparecem a John Deere, com 3,5 mil metros quadrados, a Kuhn, com 3,4 mil, e a Stara, com 2.575 metros quadrados.

A Jan figura entre as maiores, com lote de 1.452 metros quadrados.

Esses espaços ampliados permitem não apenas estandes mais robustos, mas também áreas para demonstrações práticas, exposição de máquinas e melhor circulação do público.

Áreas técnicas reforçam foco em inovação

As áreas técnicas, voltadas à transferência de tecnologia e à apresentação de resultados de pesquisa no campo, também cresceram. Criado oficialmente em 1989, o Show Rural Coopavel se tornou referência nesse formato no Brasil e no exterior.

Nesse segmento, a Bayer lidera com uma área técnica de 6 mil metros quadrados, seguida pela Corteva, com 4,9 mil metros quadrados.

A Syngenta ocupa 3 mil metros quadrados, enquanto Ihara e FMC contam, cada uma, com áreas técnicas de 1,5 mil metros quadrados.

Confiança

Para o presidente da Coopavel e do Show Rural, Dilvo Grolli, o aumento das áreas reflete a relação de confiança entre o evento e os expositores.

“Essas grandes áreas representam a confiança dos expositores no Show Rural. Somos muito gratos a todos por essa parceria construída ao longo de muitos anos. Esse resultado é fruto de um trabalho planejado, feito de forma unida e sempre com foco na inovação e na superação contínuas”, afirma.

Com estandes maiores, áreas técnicas ampliadas e espaços voltados a demonstrações, o Show Rural Coopavel reforça seu papel como vitrine de tecnologias, ambiente de negócios e polo de troca de conhecimento no agronegócio.

Renegociação do Desenrola Rural supera R$ 20 bilhões em dívidas

programa Desenrola Rural já renegociou mais de R$ 20 bilhões em dívidas, beneficiando mais de 440 mil produtores rurais e permitindo a regularização de débitos com condições especiais de pagamento e retomada do acesso ao crédito rural.

Criado pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), o programa é voltado à regularização de dívidas de produtores rurais, com foco na agricultura familiar. Desde o lançamento, foram firmados mais de 440 mil acordos, que somam R$ 20,3 bilhões renegociados e cerca de R$ 6 bilhões em descontos.

A iniciativa segue aberta para novas adesões até o dia 30 de janeiro.

O Desenrola Rural reúne um conjunto de incentivos para facilitar a regularização das dívidas, entre eles descontos de até 70% sobre o valor devido, parcelamento em até 145 meses e possibilidade de dividir a entrada em até 12 prestações.

Entre fevereiro e dezembro de 2025, foram regularizados 881 mil débitos, o que indica que muitos produtores aproveitaram a renegociação para reorganizar a situação financeira.

Retomada do crédito

Um dos principais efeitos do programa, segundo produtores, é a rapidez na recuperação do acesso ao crédito.

Após o pagamento da primeira parcela do acordo, o agricultor passa a contar com a Certidão Positiva de Débito com Efeito de Negativa (CPDEN), documento que permite a retirada do nome dos cadastros de inadimplência e a retomada do acesso a linhas de crédito, incluindo aquelas vinculadas ao Plano Safra e a outros programas federais.

Para produtores que dependem de financiamento para aquisição de insumos, renovação de máquinas ou manutenção das atividades, a regularização representa a possibilidade de planejar a próxima safra e manter a produção em funcionamento.

Prazo e projeções

Inicialmente previsto para vigorar até o fim de janeiro de 2026, o programa teve o prazo de adesão estendido até 30 de janeiro. A expectativa da PGFN é que o número de acordos ultrapasse 450 mil e que o volume total renegociado alcance R$ 22 bilhões.

No campo, o Desenrola Rural tem sido avaliado como um instrumento de reorganização financeira que vai além do ajuste fiscal, ao permitir que produtores voltem a acessar políticas públicas de crédito e financiamento após a regularização de débitos.

Cientistas criam ‘biofábrica’ de colágeno para salvar jumentos da extinção no Brasil

Uma tecnologia desenvolvida no Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) promete transformar o futuro dos jumentos no Brasil. Com o uso de fermentação de precisão, pesquisadores conseguiram criar em laboratório o colágeno idêntico ao extraído da pele desses animais, atendendo à crescente demanda da indústria de beleza e saúde chinesa sem ameaçar a sobrevivência da espécie.

Após concluir as etapas laboratoriais de bancada em 2025, a equipe busca captar US$ 2 milhões para escalar a produção em biorreatores e validar o processo em nível industrial.

‘Corrida’ contra a extinção

O cenário para a espécie no Brasil é crítico. Dados da FAO e do IBGE revelam que a população de jumentos no país despencou 94% entre 1996 e 2024. “De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, alerta Patricia Tatemoto, coordenadora da pesquisa e PhD pela USP.

Atualmente, o abate ocorre de forma extrativista para alimentar o mercado de ejiao — uma gelatina da medicina tradicional chinesa. O setor de ejiao é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com projeção de dobrar de valor até 2032. A técnica brasileira surge como a única alternativa capaz de suprir esse mercado bilionário sem levar a espécie ao desaparecimento total.

Como funciona a tecnologia

A fermentação de precisão utiliza micro-organismos geneticamente modificados para produzir proteínas específicas.

  • Biofábrica: O DNA do colágeno do jumento é inserido em uma levedura.
  • Processo: Semelhante à produção de cerveja, a levedura passa a produzir a proteína em grandes quantidades dentro de biorreatores.
  • Vantagem: O produto final é altamente purificado e dispensa fazendas, pastagens e o abate de animais.

“Já avançamos nas etapas mais complexas. Agora estamos prontos para transformar a levedura em uma biofábrica”, explicou Carla Molento, coordenadora do laboratório.

Impacto econômico e sustentabilidade

A produção em laboratório é considerada muito mais eficiente que o modelo convencional. Em um único galpão com biorreatores, é possível produzir volumes superiores de proteína com menos insumos e impacto ambiental reduzido.

O objetivo dos pesquisadores é apresentar a “prova de conceito” (produção das primeiras miligramas integrais) até dezembro de 2026. Se o investimento de US$ 2 milhões for concretizado, a produção em escala piloto poderá ser iniciada já em 2027, permitindo a transferência da tecnologia para o mercado global no modelo B2B (venda para empresas que fabricam os produtos finais).

O projeto conta com financiamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e parceria estratégica com a Universidade de Wageningen, na Holanda, referência mundial em proteínas alternativas.

 

Boi gordo desafia janeiro: preço se mantém firme com menor oferta de gado desde 2021

Contrariando a tendência histórica de queda no consumo e nos preços no início do ano, o mercado de carne bovina mantém um ritmo firme em janeiro de 2026. Segundo levantamentos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a combinação de demanda aquecida e oferta restrita no campo tem sustentado as cotações em níveis elevados.

O principal indicador dessa pressão é o encurtamento das escalas de abate. Atualmente, a média nacional está em 7,8 dias, o menor patamar para o mês de janeiro desde 2021. Para efeito de comparação, em dezembro de 2025, o prazo médio de programação das indústrias superava os 14 dias.

Retenção no pasto e demanda externa

Pesquisadores do Cepea explicam que as boas condições das pastagens neste ano têm dado ao pecuarista um maior poder de barganha. Com pasto disponível, o produtor consegue segurar os animais no campo por mais tempo, aguardando ofertas melhores, o que limita a oferta imediata para os frigoríficos.

Além disso, dois fatores têm sido cruciais para manter os preços elevados:

  • Demanda Externa: As exportações continuam em ritmo acelerado.
  • Consumo Interno: Apesar do período de férias e gastos extras das famílias (como IPVA e material escolar), o consumo doméstico tem demonstrado resiliência.

Cotações atuais

Na parcial deste mês, o Indicador do Boi Gordo CEPEA/ESALQ tem operado na casa dos R$ 319,00. No atacado da Grande São Paulo, o reflexo é direto na carcaça casada bovina, que registra média de R$ 23,00 por quilo para pagamentos à vista.

O cenário aponta para um primeiro trimestre de margens apertadas para a indústria, mas de preços sólidos para a ponta produtora, consolidando um ciclo de valorização que desafia a tradicional calmaria de janeiro.

Por: Giullia Gurgel

Indicações Geográficas devem crescer 20% ao ano, estima Sebrae

Herança dos holandeses, tortas de Carambeí (PR) receberam primeira IG de 2026. Foto: Tortas Wolf e Governo do Paraná/Divulgação

O ritmo de novas Indicações Geográficas (IGs) brasileiras deve continuar crescendo 20% ao ano. A estimativa é da coordenadora de Tecnologias Portadoras de Futuro do Sebrae Nacional, Hulda Giesbrecht, mantendo um compasso observado nos últimos cinco anos.

O processo e o registro das IGs é feito junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Em 2020, o país tinha 73 certificações feitas. No final de 2025, esse número foi para 150, um crescimento de 105,4%.

O Sebrae tem atuado na identificação de produtos regionais que têm potencial para receber o registro de IGs, além de auxiliar no processo de reconhecimento e oficialização do certificado. Só no ano passado, a entidade dos pequenos negócios encontrou 69 territórios com aptidão para receber o reconhecimento.

A coordenadora explica ainda que há um tempo considerável para estruturar e depois encaminhar o processo junto ao INPI. Só a etapa antes de protocolar o pedido de IG costuma ser de, pelo menos, 18 meses. Já o trâmite para análise e resposta do INPI é de aproximadamente 12 meses.

“Esse prazo é fundamental para a estruturação, mobilização dos produtores, construção da governança, consolidação de evidências e análises detalhadas do pedido de registro”, destacou a especialista.

O que são as IGs?
Uma Indicação Geográfica é um reconhecimento de um produto ou serviço que tem características próprias de um determinado local. Essas características conferem qualidade e reputação a essa origem geográfica. Por isso, esses produtos são mais valorizados nos mercados e essa certificação também protege a forma de produção.

Existem dois tipos de IGs:

Indicação de Procedência (IP): é o para o reconhecimento de uma localidade ou região que tenha se tornado notória como polo de extração ou produção de determinado produto ou de serviço;
Denominação de Origem (DO): se refere ao nome de um país, cidade, região ou território usado para identificar um produto ou serviço. Esse produto ou serviço tem suas características e qualidades diretamente ligadas ao ambiente geográfico de onde provém, considerando tanto os elementos naturais, como solo, por exemplo, quanto os fatores humanos, como saberes locais.
Cafés nacionais têm destaque dentro das IGs do Brasil
Entre as IGs brasileiras, 20 são conferidas a cafés produzidos em diferentes localidades do País. Do grupo de produtos, o café é o que mais tem registros conferidos pelo INPI. A maior parte se concentra na categoria de IP e nos Estados de Minas Gerais e São Paulo.

Estimativas do Sebrae apontam que produtores localizados nas regiões de IG faturaram cerca de R$ 80 bilhões em 2025. O montante é aproximadamente 68% do total movimentado pelo mercado de café no Brasil, estimado em R$ 120 bilhões.

Porém, nem todo o café produzido nessas áreas recebe o selo IG, já que alguns dependem de técnicas diferenciadas e, por isso, são negociados em microlotes. É o caso do café frutuoso, do sudoeste de Minas Gerais, que produz 100 sacas por ano, dada a particularidade na produção, que conta com técnicas de cultivo regenerativo.

Esse café recebeu o registro de IG há cerca de um ano e meio, mas já está conquistando mercados internacionais devido à qualidade e premiações, como comenta o produtor Edivaldo de Oliveira. “Dentro da IG, tem produtores que já exportam e outros que vendem mais internamente. No nosso caso, conseguimos uma exportação indireta para o Canadá, após sermos finalistas do concurso da Semana Internacional do Café”, disse.

Primeira IG de 2026 é do Paraná
As tortas de Carambeí, na região dos Campos Gerais, Paraná, tiveram a primeira IG registrada em 2026. Produzidas desde 1911, carregam traços dos imigrantes holandeses, que começaram com a produção no local. Com o tempo, as receitas foram sendo adaptadas, mas mantendo a fabricação com materiais locais e de forma artesanal.

O turismo gastronômico leva para a cidade cerca de 200 mil visitantes por ano. A expectativa é de que novos mercados possam ser abertos, além de agregar valor ao produto. “É um reconhecimento a características que são diferenciais importantes no mercado, como origem e qualidade”, destacou a coordenadora do Sebrae Nacional, Hulda Giesbrecht.

 

Competição entre etanol e exportações pode elevar preços do milho, diz consultoria

O preço da saca de milho, que desde o início de janeiro tem girado em torno de R$ 67, segundo o indicador Cepea, base Campinas, pode ganhar força nos próximos meses e se aproximar dos patamares observados durante a safra 2024/2025. No ciclo passado, a saca de 60 quilos chegou a ser negociada perto de R$ 90 na mesma praça.

Segundo Nathalia Giannetti, especialista sênior da Argus Media, esse movimento pode ocorrer devido à crescente competição entre o milho destinado à exportação e o consumo doméstico. “A demanda doméstica tomou um espaço muito relevante no mercado brasileiro nos últimos dois anos, influenciando preços e bases de forma cada vez mais consistente”, afirmou, durante webinar da Argus, nesta quinta-feira, 22.

A especialista lembra que, atualmente, o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de milho, atrás dos Estados Unidos e da China. Na temporada atual (2025/26), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o País colherá a segunda maior safra: 141,7 milhões de toneladas. “Mesmo com uma safra grande, a disputa entre exportação e etanol doméstico deve continuar intensa, o que pode provocar novas altas de preços, semelhantes às observadas entre 2024/2025”, disse. Ela ressalta que, nesse contexto, existem as exportações, que devem se recuperar após a desaceleração nas duas últimas temporadas.

Paralelamente a esse cenário, está o contexto de oferta global elevada. Segundo análise de Libin Zhou, gerente de pesquisa agrícola na Bolsa de Valores de Londres (LSEG), a produção global de milho em 2025/2026 deve aumentar cerca de 69 milhões de toneladas. O incremento é impulsionado principalmente por Estados Unidos, Ucrânia, China e América do Sul, atingindo 1,29 bilhão de toneladas.

Zhou destaca, ainda, que o aumento da oferta deve ser acompanhado por uma expansão do consumo, especialmente nos Estados Unidos e no Brasil – também sustentada pela maior demanda por milho para etanol. “Os estoques globais de milho para 2025/2026 são projetados para aumentar cerca de 26 milhões de toneladas, porque o crescimento da produção supera a expansão de consumo, baseado na nossa análise”, salienta a especialista da LSEG.

No radar da LSEG, está também um possível aumento da demanda por milho. Libin lembrou que, nos últimos dois anos, devido a estoques robustos, os chineses reduziram suas importações de milho. “Os estoques de milho da China recuaram de forma significativa, com queda por dois anos consecutivos. Diante desse cenário, a expectativa é que o país volte a ampliar as importações de milho neste ano para recompor seus estoques”, apontou.