Em entrevista ao programa Rondorural, Hélio Dias de Souza, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Rondônia (FAPERON) e do Conselho Administrativo do SENAR/RO e presidente do Conselho Fiscal da CNA para o período 2025–2029 traçou um panorama direto do que espera para o agronegócio em um 2026 marcado por calendário político e mercados em reacomodação. Sem perder o foco na rotina do campo, ele reforçou que “o agro tem sua pujança e produz todos os dias” e que a prioridade é consolidar acordos comerciais, avançar na integração logística da rota bioceânica e reduzir o custo Brasil que pesa sobre insumos e energia no processo produtivo.
O dirigente lembrou que 2026 tende a ser um ano mais complexo pela combinação de Copa do Mundo e eleições, o que tradicionalmente desacelera a tramitação de políticas públicas e regulamentações. Ainda assim, a atividade não para. Segundo Hélio, a produção nacional segue robusta, com colheitas em curso e projeções que superam a casa das centenas de milhões de toneladas nas safras 2025/2026 e 2026/2027, reforçando a necessidade de previsibilidade regulatória para dar segurança ao investimento e ao custeio.
No comércio exterior, Hélio destacou a importância de tratativas bilaterais citando negociações com os Estados Unidos e do avanço do acordo Mercosul–União Europeia. A avaliação é pragmática: se as tratativas se consolidarem, cadeias hoje tarifadas entre 10% e 20% podem ganhar fôlego com redução a zero em determinadas pautas, abrindo mercados e ampliando margens. Ele reconhece que a concorrência europeia também entra com mais força, mas vê oportunidade ao consumidor brasileiro e confia nas vantagens do país: escala, produtividade, qualidade e custo competitivo. “Se consolidar, vai abrir muitas portas para muitas cadeias. É bom para o setor produtivo e para o consumidor”, resumiu.
No tabuleiro da logística, a bioceânica surge como peça-chave com Rondônia no centro. Porto Velho sediará encontro com autoridades da Bolívia, Peru e Chile, além de representantes dos estados do Acre e Rondônia, para discutir traçado e modais de integração entre Atlântico e Pacífico. Hélio defende decisões técnicas baseadas em eficiência e menor distância, com integração dos modais rodoviário, ferroviário e hidroviário e a perspectiva de novos portos ao longo do eixo. Para ele, Porto Velho tende a se consolidar como um hub intermodal estratégico, encurtando caminhos até mercados como o de Xangai e transformando custo logístico em vantagem competitiva.
O retrato de Rondônia é de transformação visível no chão de fábrica do campo. Em uma década, o estado “deu um salto no tempo”, com os 52 municípios interligados por asfalto e propriedades rurais mais estruturadas. Na pecuária, cercas e manejo tecnificado; no café, lavouras novas, alta produtividade e maquinário, inclusive colhedoras. O resultado, segundo Hélio, aparece na renda, no patrimônio e na qualidade de vida de quem vive da terra. “Quem roda o estado vê a transformação: produtividade, tecnologia e melhoria de vida em curso.”

Nesse movimento, o SENAR/RO é o braço de execução. Hélio destacou a atuação de mais de 220 técnicos entre agrônomos, veterinários e técnicos em oito cadeias produtivas, com foco em assistência técnica e gestão. Em Porto Velho, um projeto piloto com 15 técnicos atende quatro culturas e aldeias indígenas, e um novo convênio com a FENTAG ampliará a presença do atendimento nos assentamentos. O programa Saúde no Campo, implantado em 2025, vem sendo bem aceito por trabalhadores rurais que antes não tinham esse tipo de serviço, reforçando a agenda de produtividade com qualidade de vida.
Ao tratar de crédito rural, o presidente da FAPERON adotou tom de comemoração com prudência. Agricultores familiares rondonienses contrataram mais de R$ 4 bilhões nas últimas três safras, número expressivo que exige disciplina de gestão para garantir pagamento em um ambiente de preços voláteis. A recomendação é calibrar investimento ao ciclo e ao momento de cada atividade: café vive janela positiva para tecnificação; cacau pede atenção redobrada pela volatilidade; no leite, endividamento em vacas e estrutura deve ser decidido com base em preço futuro e eficiência; na pecuária de corte, a reposição cara pode apertar margens e requer leitura fina do ciclo do boi. “Crédito é ferramenta. O segredo é o timing e a gestão do fluxo de caixa”, afirmou.
Sobre tributação, Hélio foi direto ao ponto: é preciso aliviar a carga sobre óleo diesel, insumos, máquinas e energia usados na produção. Ele questiona a assimetria que desonera exportação e indústria de processamento enquanto quem assume o risco no campo encara uma sequência de custos e tributos embutidos. A reforma tributária, em sua visão, deve evitar aumento efetivo sobre a produção primária e simplificar o sistema, priorizando a competitividade. “Queremos produzir com custo menor e previsível. Desonerar insumos é política pública pró-produtividade.”
A mensagem final é de trabalho contínuo e foco em competitividade. Com acordos comerciais destravados, logística integrada pela bioceânica e um ambiente tributário mais racional, Rondônia e o Brasil podem dar um salto. A equação, para fechar no campo, combina assistência técnica, gestão e uso responsável do crédito. “O agro segue forte e trabalha todos os dias. Cabe a nós garantir as condições para transformar essa força em resultado sustentável para o produtor e para a sociedade.”








