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Jacaré-Cuniã ganha Indicação Geográfica e fortalece cadeia sustentável no Lago do Cuniã

Um dos momentos mais marcantes da Agrotec 2026, nesta quinta-feira (27), foi a cerimônia de lançamento da Indicação Geográfica (IG) do Jacaré-Cuniã, acompanhada da apresentação da Licença de Operação do abatedouro de jacarés da Reserva Extrativista Lago do Cuniã, em Porto Velho.

Realizada no Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a cerimônia reuniu representantes de diferentes órgãos e instituições que participam da construção da cadeia produtiva do jacaré na região. O encontro foi marcado por relatos, depoimentos e manifestações sobre a importância econômica, ambiental e social do projeto para as comunidades tradicionais.

Mais do que uma solenidade, o momento representou o reconhecimento de uma história construída ao longo de anos por moradores do Lago do Cuniã, pesquisadores, órgãos ambientais, poder público e entidades de apoio.

A Indicação Geográfica tem como objetivo associar o produto ao território onde é produzido, valorizando suas características, sua origem e os conhecimentos tradicionais envolvidos no manejo. No caso do Jacaré-Cuniã, a iniciativa busca transformar uma atividade tradicional em uma cadeia organizada, sustentável e com maior valor agregado.

O manejo de crocodilianos é realizado de forma regulamentada e tem entre seus objetivos o controle populacional dos animais, além da geração de trabalho e renda para as famílias extrativistas. A atividade é acompanhada por órgãos ambientais e envolve conhecimento adquirido pelas próprias comunidades ao longo dos anos.

A experiência não começou agora. Registros do próprio ICMBio mostram que o manejo de jacarés na Resex Lago do Cuniã começou a ser estruturado há mais de uma década. A atividade surgiu também como uma resposta à preocupação da comunidade com a grande quantidade de jacarés existente na região e seus impactos sobre a segurança dos moradores e pescadores.

Com estudos populacionais e definição de cotas de manejo, a comunidade passou a trabalhar com a captura regulamentada, beneficiamento e comercialização da carne e do couro.

Ao longo desse processo, a COOPCUNIÃ — Cooperativa de Moradores, Agricultores, Pescadores e Extrativistas da Resex Lago do Cuniã — tornou-se peça fundamental para organizar a atividade e representar comercialmente os produtores.

Frigorífico representa um dos principais avanços

Outro ponto de destaque da cerimônia foi a Licença de Operação do abatedouro de jacarés.

A Licença de Operação nº 1692/2026, emitida pelo Ibama, autoriza o funcionamento do empreendimento localizado na comunidade Silva Lopes Araújo, na zona rural de Porto Velho. O documento possui validade de seis anos e representa um importante avanço para a regularização e estruturação da cadeia produtiva.

O empreendimento é administrado pela COOPCUNIÃ e recebeu apoio técnico do Sebrae, por meio do Sebraetec, durante o processo de regularização ambiental.

A estrutura permite que uma parte importante da cadeia produtiva seja realizada dentro do próprio território, agregando valor à produção e criando condições para que a renda permaneça na comunidade.

Estudos sobre a atividade apontam que o frigorífico do Cuniã possui uma característica singular: ele foi estruturado dentro de uma unidade de conservação para atender ao modelo de manejo sustentável desenvolvido pela comunidade. Pesquisas também apontam a importância da cadeia para a geração de renda complementar das famílias extrativistas.

Da conservação à geração de renda

A experiência do Lago do Cuniã mostra que conservação ambiental e geração de renda podem caminhar juntas.

A proposta não é simplesmente retirar animais da natureza, mas trabalhar com um modelo regulamentado de manejo, baseado em estudos populacionais, controle das capturas e acompanhamento dos órgãos responsáveis.

O resultado é uma cadeia que envolve captura, transporte, abate, beneficiamento, armazenamento e comercialização, além do aproveitamento do couro.

Em agosto deste ano, uma equipe do Sebrae, acompanhada por representantes do ICMBio, Semagric e Emater, participou de um abate-teste. O procedimento faz parte do processo técnico necessário para garantir que a atividade possa avançar dentro das exigências ambientais e sanitárias.

A expectativa é que a estruturação da cadeia possibilite ampliar o mercado, agregar valor ao produto e criar novas oportunidades para os moradores da Resex.

Indicação Geográfica pode levar o nome do Cuniã para outros mercados

A construção da Indicação Geográfica é mais um passo nessa trajetória.

O processo vem sendo desenvolvido com participação da Prefeitura de Porto Velho, por meio da Semagric, ICMBio, Ibama e Sebrae. Um diagnóstico realizado em 2025 identificou o potencial da carne de jacaré do Lago do Cuniã para receber o reconhecimento.

A próxima etapa técnica está prevista para ocorrer entre 1º e 6 de setembro, dentro da própria Resex, quando serão reunidas evidências sobre a relação entre o produto, o território, suas características, o modo de produção e os conhecimentos tradicionais associados à atividade.

A Indicação Geográfica pode representar uma mudança importante na percepção do produto. Em vez de ser comercializado apenas como carne de jacaré, o produto passa a carregar uma identidade vinculada ao Lago do Cuniã, à Amazônia, às comunidades tradicionais e ao manejo sustentável.

 

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