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Mutirões de catarata voltam a Rondônia e reacendem debate sobre riscos à saúde pública em ano pré-eleitoral

O retorno dos mutirões de cirurgia de catarata em Rondônia, que terá início em Ariquemes, mas querem levar para os demais municípios do Estado. Este programa é uma ação do Governo Federal com apoio de lideranças municipais e membros da bancada federal, que reacende um debate que o estado conhece bem e que deixou marcas recentes. Trata-se de um modelo já questionado técnica e eticamente, especialmente após os graves episódios registrados em 2022.

Naquele ano, um mutirão oftalmológico realizado em Porto Velho resultou em um surto de infecção ocular grave (endoftalmite) em dezenas de pacientes, fato confirmado pelo Conselho Regional de Medicina de Rondônia (Cremero) e amplamente repercutido pela imprensa nacional e internacional. O episódio expôs falhas críticas no modelo, como alto volume de cirurgias em curto período, fragilidade nos protocolos sanitários e dificuldade de acompanhamento pós-operatório fatores incompatíveis com a segurança exigida em cirurgias intraoculares.

Apesar desse histórico recente, com mais de 40 pessoas cegas, a estratégia volta a ser adotada às vésperas de um novo ciclo eleitoral. Para especialistas, o formato evidencia ações pontuais com forte apelo político, que priorizam impacto imediato e visibilidade, em detrimento de políticas públicas estruturantes, contínuas e integradas à rede local de saúde.

Esse modelo contrasta com o caminho iniciado pelo Governo do Estado de Rondônia, que em 2024 implantou um programa estadual de saúde oftalmológica, baseado em linha de cuidado contínua e valorização de profissionais locais. Embora o programa enfrente limitações financeiras, representa uma política de Estado. Diante disso, especialistas questionam por que a bancada federal não atua de forma coordenada, garantindo recursos e sustentabilidade ao que já está em funcionamento, optando, ao invés disso, por novas ações paralelas e itinerantes.

O risco associado a esse tipo de iniciativa é reconhecido pelas próprias autoridades sanitárias. Tanto que o Ministério da Saúde, por meio da Anvisa, publicou nota técnica específica para disciplinar e restringir a realização de cirurgias oftalmológicas em estruturas móveis, como carretas, diante do elevado risco sanitário quando não há controle rigoroso de ambiente, esterilização, fluxo cirúrgico e acompanhamento clínico adequado.

A repetição desse modelo em ano pré-eleitoral reforça um problema recorrente: tratar saúde pública como ferramenta de campanha. Catarata não se resolve com ações episódicas. Resolve-se com planejamento, financiamento contínuo, valorização dos profissionais do estado e segurança para a população.

Conselho Regional de Medicina de Rondônia (Cremero)
Confirmou surto de endoftalmite após mutirão de cirurgias oftalmológicas em 2022.

Identificou falhas em protocolos sanitários e no acompanhamento pós-operatório.
Alertou para risco real de perda visual definitiva em pacientes afetados.

Ministério da Saúde / Anvisa
Publicou nota técnica alertando para os altos riscos de cirurgias oftalmológicas em unidades móveis (carretas).
Destacou a necessidade de ambiente controlado, esterilização rigorosa, equipe fixa e rastreabilidade dos pacientes.
Reforçou que cirurgias intraoculares exigem estrutura equivalente à de centros cirúrgicos regulares.

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